Conto. Eterno amor

Eterno amor.

 

 

Chuviscava naquela tarde. O céu estava da cor das almas que seguiram o caixão

até a campa de família. O cemitério estava apinhado de gente. Maria do Carmo era uma das pessoas mais queridas no bairro onde morava, pessoa que havia trocado uma vida de luxo em benefício dos mais desprotegidos. No bairro social tinha formado uma escola de música, um infantário e uma cantina que alimentava dezenas de famílias por dia. Por todas estas coisas, por tudo o que representava para a comunidade era naturalmente acompanhada   por todos os quantos ajudava. Nos corações entristecidos, nas mentes confusas sobressaía uma pergunta; E depois de sua morte? Ora, a essa íntima pergunta só havia uma pessoa que poderia responder; Seu filho, seu único herdeiro.   Mas Leonardo era completamente desprovido de amor ao próximo. Enquanto sua mãe utilizava sua enorme fortuna para auxiliar os pobres, ele com a parte que seu pai lhe havia deixado gastava a tripa-forra sem preocupações de maior pois era muito dinheiro. O medo da população era real. Eles conheciam-no! Leonardo apareceu no enterro. Contra sua vontade teve de cancelar um encontro com uma modelo que muito queria conhecer. A maldita velha tinha que morrer logo hoje, exclamou quando recebeu a notícia. Rapaz dotado de grande beleza, cheio de dinheiro, naturalmente era muito pretendido nas hostes femininas. Ora, se Leonardo já era proprietário duma fortuna quase infinita, mais ainda ficaria quando a parte de sua mãe lhe viesse parar aos bolsos. Essa era a parte mais agradável da questão. Não perdeu tempo. No dia seguinte procurou o advogado de sua mãe e quis de imediato saber como e quando receberia sua herança. Para sua surpresa oadvogado não só não lhe disse como informou-o que estivesse no dia seguinte no seu gabinete para ler a carta que sua mãe havia deixado. Carta? A velha tinha um namorado? Como podes ser tão insensível jovem, perguntou-lhe o advogado. Faça só aquilo   que lhe mandam, velhote, retrocou. Leonardo não só herdara a fortuna de seu pai como também o feitio deveras complicado. Era arrogante, mal-educado, e desguarnecido de humildade. No dia seguinte surgiu bem cedo no escritório do advogado. Chegado a hora de ler a dita carta, Leonardo constatou que havia mais uma pessoa. Uma linda rapariga de seu nome Sofia. Desculpe, que faz esta aqui? Esta aqui como dizes é parte interessada na carta. A mãe gostava de mulheres? Ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah.Não me digam! O advogado fez uma cara de nojo. A miúda baixou a cabeça e colocou as mãos entre os joelhos. Então vamos a isso, afirmou. Eu Maria do Carmo silva autorizo que meu advogado Renato Medeiros seja o porta-voz das minhas vontades e execute tudo o quanto lhe pedi. Leonardo meu filho… Sim mamã?Ah,ah,ah,ah,ah,ah,ah. Quero-te dizer que parte do meu dinheiro ou seja, metade e por minha vontade seja depositado na conta da minha filha Sofia, fruto dum amor antigo. Como? Eh, pára tudo, gritou Leonardo. Isto é uma brincadeira? Sente-se jovem, pediu-lhe o advogado. Sente-se nada! Leonardo como levou um soco no estômago. Como poderia ser possível que a velha tivesse tido uma filha sem ninguém dar por isso? Puta! Puta! A velha nojenta era uma puta desvairada! Sente-se senão eu chamo a polícia, gritou-lhe o velho advogado. Ouviu ou vou ter mesmo que chamar, acrescentou.   A rapariga manteve-se de cabeça baixa e as lágrimas caíam-lhe abundantemente. Apesar de todos os insultos, o advogado conseguiu ler na totalidade a carta testamento. Leonardo saiu disparado do escritório barafustando com tudo e todos, estava verdadeiramente raivoso. Bem no fim da carta sua mãe explicou como e porquê ocultou sua querida filha que havia sido fruto dum amor proibido , porém muito intenso. Era fácil de perceber. A data do acontecimento seu esposo, pai de Leonardo, mal aparecia em casa tudo derivado aos negócios. Por seu lado Maria do Carmo, esposa do magnata da marinha mercante   passava todo o tempo viajando. Haviam meses que não se viam. Leonardo naquela altura tinha uns 13 anos e sempre preferiu o pai a mãe. Foi numa dessas longas viagens que por vezes duravam vários meses que conheceu o pai de Sofia , um engenheiro Inglês. Tiveram uma relação curta mas verdadeiramente especial. Ele era casado e gostava de viagens, ela era esposa dum bem-sucedido empresário, e ambos   levaram a relação como mero complemento,   como uma forma de usufruírem de momentos de paixão, um pequeno detalhe, mas muito importante em qualquer matrimónio. Quando soube que estava grávida, Maria do Carmo não teve dificuldades em esconder sua gravidez. Bastou-lhe dizer ao seu esposo que iria passar uns tempos fora. Ele até lhe agradecia! O casamento era de pura conveniência. Ela mal tinha nascido e já estava a ser prometida ao filho de seu grande amigo e sócio. Maria do Carmo cresceu e fez-se uma rapariga deveras deslumbrante, das mais bonitas de Portugal. Mas como a espécie de negócio já estava apalavrado desde que nascera, aos 20 anos casou-se e passado um ano teve Leonardo. Depois da morte de seus pais, depois da morte dos seus sogros, as fortunas passaram para uma só mão, a do seu marido! As preocupações eram tantas, as viagens de negócios eram tantas, as amantes eram tantas que ele nem tempo tinha para a família. Ora, ela era uma mulher deslumbrante, não havia homem que não se encantasse pela delicadeza e sensualidade que empregava em todos os gestos e palavras. Contudo, Maria do Carmo acomodou-se na relação e apesar da falta de afecto, apesar de pouco sentir além de amizade por seu esposo nunca entendeu dar um passo em frente. Foi com alguma naturalidade que se envolveu com o engenheiro inglês. Nunca sentiu remorsos, pois sabia dos romances do seu marido com outras mulheres. Ele nem se dava ao trabalho de esconder. Podia-se dizer que quando se encontrava que era do tipo, faz de conta que não é nada comigo! Ficou dois anos fora de Portugal. Deu a luz uma linda menina que colocou o nome de Sofia,   ela sim fruto dum curto e veemente amor! Sofia cresceu longe de Portugal mas nunca lhe faltou amor. Sua mãe depois de convencer seu marido que precisava dar um tempo a relação com a argumentação que estava muito fria, estabeleceu-se em londres até Sofia ficar a par de toda a história. A moça entendeu sua mãe e por mútuo acordo combinaram que ela viveria em Inglaterra e quando viesse a Portugal era como uma simples amiga, e foi isso que aconteceu até o dia de sua morte. No entanto seu filho sempre quis ficar com o pai, que neste caso só veio facilitar as coisas. Mas Maria do Carmo também o amava apesar do distanciamento evidente de Leonardo. A certa altura da sua vida entendeu colocar sua riqueza ao serviço dos mais pobres. Fundou uma fundação só depois de sua filha estar formada e empregada, e por sua conta.   Dedicou-se de corpo e alma a ajudar uma esquecida população que foi literalmente atirados para guetos e deixados a sua sorte. Deram-lhes casas novas em troca das barracas, mas esqueceram-se de lhes dar o essencial, condições e empregos que pudessem sustentar seus filhos sem precisar recorrer ao tráfico ou ao contrabando. Por todas estas coisas e por outras, Maria do Carmo estabeleceu-se num dos bairros mais problemáticos e começou sua empreitada contra as injustiças sociais. Em 10 anos já era reconhecida no país todo como a mãe dos pobres. Rapidamente outros endinheirados da sociedade quiseram-lhe seguir os passos e tambémauxiliar os mais desprotegidos. A pobreza nacional agradeceu a todos estes benfeitores, poucos para tanta degradação. Os últimos anos de sua vida Maria do Carmo que tinha escondido de todos que era portadora duma doença terminal transformou um bairro difícil numa comunidade cheia de projectos onde as várias etnias conviviam alegremente.

Depois duma batalha judicial que Leonardo   fez questão de mover contra Sofia, depois de perder em todas as instâncias, depois de metade da fortuna de sua mãe ter passado para sua meia irmã, começaram da parte dele a chover ameaças. Sofia era uma mulher muito determinada. Herdou a beleza de sua mãe a sagacidade de seu pai inglês e durante sua vida foi aprendendo que com os loucos não se fala, mas deixa-se que falem! Leonardo não se contentava com que tinha, achava-se merecedor de tudo pois ele fora sempre que esteve do lado de seus pais, embora todos os recursos tivessem chegado a mesma conclusão, Sofia era tanto filha de Maria do Carmo como ele , portanto herdeira de plenos direitos.

Sua mãe tinha sido cautelosa ao ponto de deixar nas suas mãos a inacabada empreitada de cuidar de todos aqueles que duma maneira o outra perderam o barco da felicidade e transformaram-se em meros viajantes num labirinto sem saída!

Sofia ainda não completamente refeita do choque da morte de sua querida mãe, quis fixar-se definitivamente em Portugal. Não existia mais nada a esconder, seria a nova directora da fundação criada por sua mãe. O que a linda moça não sabia era que Leonardo havia jurado para si mesmo que seria seu pior pesadelo! Influente num país que o dinheiro comprava opiniões, projectos, ideias, até a própria dignidade, não lhe foi difícil em pouco tempo destruir a fundação. Bastou um projecto de lei que proibia terminantemente qualquer instituição privada de fazer o que era uma obrigação do estado. Por cada vitória sua Leonardo fez sempre questão de ligar a mana com o seguinte comentário; dá-me o que é meu e eu afasto-me! Sofia recorreu a advogados, a polícia, aos tribunais, mas tudo em vão. Eram preciso provas e ela não as tinha! Entretanto Leonardo divertia-se com o jogo, dava-lhe gozo saber que a maninha desaparecida vivia aflita sem saber para onde se virar.Não, não Leonardo, eu não vou regressar a londres, disse-lhe uma vez que ele a procurou. Dá-me o que é meu! Era sempre o mesmo comentário; Dá-me o que é meu! Não, não te dou porque foi minha mãe que me deixou! Sofia podia viver a vontade dos rendimentos. Podia até desaparecer de Portugal e deixar Leonardo a falar sozinho, mas quando se recordava do dia que foi abordada no elevador por dois homens disfarçados que a espancaram a té ficar sem sentidos e desfigurada pelo ácido que lhe lançaram para o rosto , jamais cedia a Leonardo. Ele tinha pisado o risco , sua paciência tinha terminado, entraria no jogo dele. Todas as vezes que se olhava ao espelho e via seu rosto desfeito pelocorrosivo líquido que seu ódio aumentava. Se é guerra que queres maninho é guerra que vais ter! Ora, a moça consumida por uma raiva sem precedentes, rodeou-se de gente da pior espécie. Dinheiro não lhe faltava, e como quem tem dinheiro tem quase tudo, Sofia tinha o mundo aos seus pés. O primeiro aviso que havia entrado na guerra aconteceu quando Leonardo foi surpreendido a porta do condomínio privado por dois capangas de Sofia que o deixaram entre a vida e a morte. Então a o comentário passou a ser outro quando Sofia fez questão de visitar seu mano no hospital onde seu corpo tinha mais ossos quebrados que inteiros. Deixa o que é meu!

Passado o doloroso acontecimento , Leonardo homem sem um pingo de escrúpulos atingiu o limite do razoável, nem Sofia esperaria tamanha barbaridade vinda dele. A data tanto ele como ela deslocavam-se com guarda-costas não fosse o diabo tesselas. Contudo e não obstante tanta vigilância Leonardo e meia dúzia de seus subalternos fizeram uma emboscada , apanhando Sofia de surpresa. Houve mortos, os dois irmãos haviam entrado em definitivo no mundo perverso dos assassinos! Não satisfeito e capturada por ele, foi violada pelo próprio irmão defronto aos   restantes e deixada na berma da estrada onde tudo havia acontecido.

Eu abdico de tudo, disse-lhe Sofia. Por minha mãe leva tudo, eu não quero o teu dinheiro. Sofia depois do sórdido facto , resolveu lhe dar o que sua mãe lhe tinha deixado de herança! Assim mesmo é que se fala maninha, disse-lhe ele divertido. Podias ter evitado muita coisa se tivesses dado ouvidos ao teu irmãozinho! Foi destruída por dentro, arrependida por ter entrado no jogo diabólico de seu irmão, por ter manchado a honra e a imagem de sua mãe que Sofia resolveu por bem voltar a Inglaterra e morrer por lá.

Quanto a Leonardo , casou-se com a mulher mais bonita de Portugal, mas que o traía todos os dias,     ficou na miséria em pouco tempo, e os dois filhos que colocou no mundo, uma menina matou-se aos 13 quando foi violada pelo próprio pai, quanto ao outro entrou nas drogas pesadas, o mesmo que ressacado e privado de dinheiro pelo pai e entre bofetadas e socos, espetou no peito do seu pai uma faca causando sua morte.

Leonardo foi sepultado ao lado de sua mãe. Reza a lenda que quando os coveiros daquele cemitério escavaram afim de retirar os ossos de Leonardo , depararam-se com dois esqueletos onde só poderia estar um. Mas o mais difícil de acreditar foi quando homem que escavou verificou com seus próprios olhos que as ossadas de Maria do Carmo pareciam estar a abraçar o esqueleto de seu filho!

 

Fim.

 

Pragassa.