Conto. Filho de menos...

filho de menos

 

 

Augusto foi acordado ainda não haviam batido seis da manhã. Como quase todos os dias seu filho puxou-lhe a roupa para baixo e gritando disse-lhe; Vamos a acordar ! Nesta casa para se comer tem- de se trabalhar. Hoje não me apetece disse-lhe ainda mal acordado. Doía-lhe os ossos, e prometera a Júlia uma amiga de longa data que passearia com ela pela beira rio. Desde que sua esposa faleceu ele ficou com seu único filho quetransformou sua vida num verdadeiro inferno. Marco até o dia que sua mãe desapareceu suportava-se, nunca lhe faltou nada porque quando o menino fazia birra por qualquer coisa, sua mãe apressava-se de súbito em satisfazer suas vontades. Ele agora está a pagar pelas inúmeras altercações que tinha com a falecida. Andas a mimar demais este rapaz! Não é assim que o preparas para avida. Naquela altura era normal que Marco fosse mais apegado a mãe pois era ela que lhe dava tudo, era ela que saciava os caprichos mais esquisitos do menino. Quanto a ele limitava-se a trabalhar e certificar-se que não faltava em casa o básico. Marco foi crescendo e com ele a certeza que tudo o que fizesse sua mamã não o condenaria. Ele estava certo! Augusto agora arrepende-se de não ter sido mais interventivo e mais auteritário.Marco transformou-se num monstro sem coração, num ser-humano sem carácter e sem o fundamental sentimento, Gostar de alguém! Não fora a cláusula que ele exigira que fosse colocada na doação em vida de ambos certamente seu filho já o tinha posto num lar qualquer, num desses lares que nascem como cogumelos a margem da lei e que abundam em Portugal. A casa que levou uma vida para ser paga , mal sua querida esposa faleceu passou automaticamente para o nome de Marco tal qual tinha sido acordado. O princípio de sua desgraça. Marco transformou-se no seu pior pesadelo. O filho que tanto desejou, a criança que virou homem e que apesar de tudo ainda amava, todos os dias e a partir de certa altura colocou-o a pedir na boca do metro com a desculpa que teria de ganhar para comer.   São frequentes os dias que Marco lhe bate. Apesar de saber que a educação que lhe deu sua mulher, apesar de ele a ter avisado que ela só o estava a prejudicar, apesar de tudo, nem ela, nem ele imaginariam que ele viesse a se transformar numa pessoa orrenda,um egoísta, um ser-humano sem escrúpulos , uma verdadeira besta! Esteja doente ou não esteja, com chuva ou sem chuva, frio ou calor, Marco faz questão de o levar todos os santos dias a boca do metro onde o deixa só e sem um tostão para nada!

Hoje não vou. Não estou a me sentir bem, barafustou Augusto para espanto de seu filho, verdadeiramente mal-humorado. Oh meu cabrão, disse-lhe pegando-lhe pelo cabelo e arrastando-o até a janela do quarto. Estás a me magoar besta de merda, gritou-lhe Augusto. Estou a magoar-te? Ah sim?Tua mãe é a culpada bicho nojento! Marco era um homem muito possante. Ele manipulava seu pai outrora também homem robusto como ele fosse um boneco articulado. Pegou-lhe pelas axilas e levantou-o e disse-lhe cara na cara, dou-te cinco minutos para te vestires velho filho da puta. Aqui as coisas não caem do céu sabias. Augusto olhou-o bem no fundo dos olhos negros e frios de seu filho e disse-lhe; Como pode ser possível meu Deus. Uma mulher tão boa como a tua mãe não ter dado por nada. O quê velho! Em todos os jardins as ervas daninhas confundem-se com as flores. Se não as cortamos e lançamos no fogo elas crescem e sufocam aquela que com sua protecção a ajudou a vingar! Filosofia velho? Sabes o que é isso filho, perguntou-lhe Augusto ainda seguro pelas mãos vigorosas de seu filho. Marco sorriu-lhe com sarcasmo. Cinco minutos já te avisei. Não, hoje não vou para lado nenhum! Augusto estava disposto a esticar a corda, queria ver até onde ia a falta de sensibilidade de seu filho. Ora, arrependeu-se, Marco lançou-o no chão e encheu-o de pontapés e bolachadas até ele perder os sentidos. Quando abriu os olhos a primeira cara que viu foi a dele novamente. Melhor? Já sabes quem manda? O teu tempo de mandar já passou velho, disse-lhe Marco. Filho, estou com o corpo todo partido, disse-lhe Augusto em sussurro. Não estás nada. Isso foi só umas carícias. Mas se não me obedeceres no futuro eu mando-te para debaixo da terra coisa podre! Augusto fechou os olhos, pelo menos naquele dia não se humilharia nas escadas do metro. Sua dor era profunda, não era aquela   a velhice que queria para si. Chorou de angústia, uma desilusão tão forte, um aperto no peito tão intenso que só lhe apetecia se lançar da ponte abaixo. Oh Júlia, murmurou soltando toda a sua frustração em forma de lágrimas. Não, já não tenho forças amiga, repetiu vezes sem fim. Marco tinha o deixado mal tratado. Sua boca estava arrebentada, suas costelas doíam-lhe muito, provavelmente ele provocara-lhe algumas fissuras. Não aguentava mais aquela vida. Augusto outrora um homem sem medo de nada, homem destemido, estava cagado de medo do seu próprio filho! Pensou tantas vezes em denunciá-lo as alteridades. Pensou inúmeras vezes em contar tudo a Júlia sua única amiga. Pensou em tanta coisa mas quando se lembrava das palavras de seu filho, das ameaças que o matava de porrada se ele tentasse qualquer coisa, tudo era ocultado. Marco, Marco! Dona Júlia como vai? Onde está seu pai? Meu pai hoje está doente coitadinho, respondeu-lhe Marco pesaroso. Porque não o tira da boca do metro? Oh dona Júlia, já lhe disse milhares, milhões de vezes que ele não precisa pedir eu ganho bem para os dois, e ele tem sua. Reforma que lhe dá para viver. Mas insista meu querido. Faça isso pela sua mãe, rematou a velhota. Claro que sim. Hoje quando chegar a casa do trabalho vou-lhe dizer que não vá mais pedir ele não precisa! Obrigado meu lindo. Tuamãe realmentecriou um rapaz as sérias. Obrigado dona Júlia , muito obrigado, declarou Marco virando-lhe as costas. Velha mijona, murmurou afastando-se. O dia ia a meio quando os guardas viram entrar esquadra dentro um velhote vestido de pijamas . Oh amigo, oh amigo, isto aqui não é dormitório disse-lhe um policial a porta. Por favor, por favor vocês tem de me ajudar, meu filho mata-me! Augusto decidiu-se por denunciar seu filho. Ele não perdia nada mesmo. Se nada fosse feito ele espancava-o até a morte, se alguma coisa resultasse da denúncia ese não fugisse provavelmente sucederia o mesmo. Portanto, Augusto não podia permitir que um monstro daqueles andasse a contaminar o mundo, e se preciso fosse pagaria com a própria vida a audácia de o ter confrontado, mas estava firme e não voltaria a trás! Eu quero fazer queixa do meu filho! Deixe-me falar com o guarda responsável! O que é que se passa aqui, perguntou o subchefe Serafim . Chefe, este velho maluco diz que quer fazer queixa do filho, esclareceu-lhe o seu subordinado com um ligeiro sorriso. Guarda Simões? Sim senhor? Este homem tem tanto direito como qualquer um de nós a fazer queixa, e é nosso dever como agentes de alteridade ouvir seja quem for sabia? Sim senhor! Muito bem, então eu vou recebê-lo. Por favor veja se o senhor precisa dum café ou coisa parecida, ordenou-lhe Serafim um dos subchefes da polícia mais ponderados e sensíveis da polícia de segurança pública portuguesa. Augusto passou toda a tarde contando a Serafim sua vida antes e depois da morte de sua mulher. Mas apesar de suas lamentações e de lhe informar que seu filho era um homem muito violente , depois de lhe mostrar as nódoas negras , depois de tudo, Serafim só lhe pôde dizer; Vá para casa, faça a parte que está tudo bem, continue pelo menos até agente flagrá-lo a agir como dantes. Só assim o podemos melhor ajudar. Augusto indignou-se e a frustração tomou conta dele. Ele quer me matar e vocês dizem-me que vá para casa? Serafim não podia lhe dizer mais do que disse e tentou explicar que sem testemunhas e sem provas evidentes seu filho poderia alegar o que quisesse . Vá, vá que eu prometo-lhe que não me vou esquecer de si, disse-lhe Serafim cumprimentando-o a porta da esquadra. A noitinha quando seu filho regressou, Augusto manteve-se no quarto tal qual ele o havia deixado. Melhor? Mais tranquilo, perguntou-lhe seu filho. Augusto ficou mudo. Queres jantar? Oh velho, fala! Não quero quero nada! Fecha a porta e deixa-me sossegado, pediu-lhe ele. Vamos a acordar! Desta vez Augusto obedeceu sem pestanejar. Bico calado. Ouviste? Eu não falo nada a ninguémpodes estar descansado, respondeu-lhe Augusto saindo do carro. Todas as vezes que Júlia via seu velho amigo pedindo nunca se aproximava, mas desta vez quis lhe falar. Esperei por ti, disse-lhe. Teu filho disse-me que estavas doente. Sim, fiquei meio adoentado, respondeu-lhe Augusto morrendo de vergonha. Porquê? Porquê porquê? Porquê pedes se não precisas? Augusto, disse-lhe Júlia. Ele baixou a cabeça e deixou cair algumas lágrimas. Augusto, Augusto passasse alguma coisa que queiras me dizer? Amigo, pelo amor que ambos tínhamos a Rosa por favor diz-me! O dia decorreu e Marco estava verdadeiramente satisfeito com seu pai. Bolas velho, hoje arrebentaste a escala! 20 euros, uau!Hoje mereces um copinho de vinho a mais, afirmou enchendo-lhe o copo. Obrigado. Muitos estrangeiros , declarou Augusto. Oh velho, eh pá desculpa daquilo ontem. Eh pá mas tu as vezes tiras-me do sério velhote. Que tal amanhã ires comigo dar uma volta. Vou-te apresentar a tua futura nora, que tal? Marco já estava um pouco embriagado. Augusto preferia que ele estivesse sempre bêbado, com bebida tornava-se mais benevolente. Até nisso ele divergia da maioria. Não filho. Vou aproveitar os estrangeiros e vou ver se ganhamos mais algum. É assim mesmo que se fala! Boa velho! Estou cada vez mais a gostar do meu papá! No outro dia lá estava Augusto. Mas desta vez Júlia não o deixava. Júlia também era uma mulher sem família. Enquanto foi casada não quis filhos, depois de seu marido morrer vivia disfrutando da vida, fazendo o que não podia quando trabalhava por conta do estado. Conhecia Augusto quando ainda ele era rapazote. Lembra-se quando ele começou a namorar Rosa e recorda-se do nascimento de Marco, ela era presença constante na casa do casal!

Mas 20 euros? Sim, sim, muitobem senhor augusto, disse-lhe seu filho mas desta vez com cara de poucos amigos. De repente sua mão estendeu-se sobre a mesa agarrando o pescoço de seu pai e apertando-o até Augusto cair no chão sem ar. Meu verme nojento! Pensas que eu não sei que aquela velha fedorenta é que anda a te dar o dinheiro! Eu não ando a dormir! Marco estava verdadeiramente furioso. Deu a volta a mesa e levantou- seu pai como dum brinquedo se tratasse e aplicou-lhe uma cabeçada. É hoje que te mato velho filho da mãe!   Augusto contorcia-se no chão de dores. O que é que vocês andam a magicar, ãh?Queres me fazer afolha! Anda cá velho nojento. Marco arrastou seu pai até a casa-de-banho e abriu o chuveiro e colocou-lhe lá debaixo a cabeça. Acorda velho miserável! Serafim depois de se certificar que aquele velho era mesmo maltratado pelo filho, depois de Júlia o ter procurado na esquadra e contar o que se passava, ele outrora filho duma mulher que tinha sofrido na pele todo o tipo de violência, não se fez rugado e tratou de apanhar aquele bicho em flagrante. Nem que para isso tivesse de infringir algumas regras.

Acorda! Augusto fez-se de morto. Pendeu a cabeça para o lado de dentro da banheira e susteve o ar. Marco quando constatou que ele não se mexia nem com água gelada na cabeça preocupou-se em se ver livre do corpo. Quando se agachou para tentar erguê-lo eis que ouviu; Você está preso em nome da lei. Tudo o que diga poderá ser usado contra si! Surpreendido e pasmado pelo sangue frio de seu pai, Marco foi de imediato algemado por Serafim que tinha do seu lado dona Júlia como testemunha do ocorrido . Marco foi condenado a pulseira electrónica e por ordem dojuiz a a cláusula   que supostamente garantiria uma vida tranquila na habitação a seu pai foi adulterada, o mesmo juiz ordenou que ao doação seria anulada e a casa passasse a ser propriedade   de augusto. Protegido e com seu filho a distância, Augusto por fim pôde sorrir de novo. Disseram-lhe um dia que por muito ruins que os filhos sejam para os pais, eles nunca os deixariam de os amar, Augusto descordava dessa corrente de opinião. Então deixou para mais tarde se ler um breve texto bem juntinho a foto de sua falecida mulher. Não, não se deve condenar ninguém por amar muito. Não, não te condeno porque quiseste somente oferecer o que tinhas de mais puro, amor, afecto, abraço de mãe. Mas Rosa, quando se cuida duma fera arriscamo-nos a ser atacados mais tarde ou mais cedo. Não existe culpados, amar, dar amor nunca é demais!

 

Fim.

 

Pragassa.