Conto: Gestos Cristalinos

Conto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gestos cristalinos.…

 

Caía sobre a cidade ainda semiadormecida uma névoa fria e constante. Os habitantes da mesma ensonados rumavam as pastelarias a fim de tomar o primeiro café da manhã. O aroma dos bolos quentes e acabados de convencionar espalhava-se por toda a cidade. Era uma cidade basicamente de gente trabalhadora, com algumas excepções como é normal em grandes aglomerados. O sol de repente surge espreitando sobre o monte que encobria a pequena metrópole dos ventos húmidos do sul. Os pinheiros bravos deram em gotejar mal os primeiros raios do astro rei os abraçava calorosamente. Desaparecendo como por mágica, a neblina deu lugar a luz do dia, a população refletia a dádiva com sorrisos o chegar do rei dos reis. Era uma população pacata, contudo bastante retrógrada no que concernia as diferenças físicas, religiosas, enfim, dissemelhanças. Uma migalha de gente já habitual pelas manhãs irrompeu pastelaria dentro com sua pequena mão estendida. Com umas sandálias, calçado pouco recomendado para o inverno, pedia esmola. Percorrendo todo o recinto com um ligeiro sorriso forçado. A bonita criança aparentava sinais de hipotermia. Todos a conheciam. Era comum vê-la vagueando pela cidade suplicando dinheiro para ajudar seu pai, um alcoólico. Por favor senhora, senhor, dê uma esmola para ajudar na alimentação, clamava. Seu longo cabelinho loiro a muito que precisava de ser lavado, sua roupa, era visível que já não via água há muito. Alguns davam-lhe por pena dela somente, outros diziam-lhe que não estavam para encher o bucho dum bêbado. Comentários que entristeciam a pequena criança que, ao ouvir tais comentários deixava cair algumas lágrimas. Havia também quem se compadecesse por ela ao ponto de a quererem levá-la para casa, dar-lhe um lar, coisa que não tinha, ou melhor, tinha mas não se poderia chamar a uma velha azenha na orla da cidade, um lar. Mário sabia como ninguém o que fazia passar sua filha. Seu coração amargava, todos os dias quando ela lhe dizia pela manhã: Papá, vou buscar dinheiro para ficares melhor. Mário consentia. Consentia porque o vício do álcool falava mais alto e sobrepondo-se a rezoabilidade.Passava os dias bebendo longe de tudo e de todos. Martinha quando notava que já tinha ganhado para seu almoço e dinheiro para o vinho do pai, a primeira coisa que fazia era ir a mercearia do senhor Artur. O velho comerciante era dos poucos que sentia pena de Martinha, não se cansava de lhe pedir que fosse a escola e que deixasse seu alcoólico pai. A criança de oito anos não gostava de ouvir abandono e por vezes zangava-se com ele. Inteligente como só ela era, perguntava-lhe: Senhor Artur, se subitamente seu filho desaparecesse o senhor falava isso? Ora, tais perguntas desarmavam o velho comerciante, pois ficava sem argumentos. Muitas vezes as técnicas da direção de violência e apoio aos jovens e crianças desprotegidas procuraram-na, mas foram sempre ludibriadas. Enquanto a linda criança de cabelos doirados discutia com o velho merceeiro, seu pai foi despertado por uma visita que ele sabia mais tarde ou mais cedo seria uma realidade. Depois de muita altercação com senhor Artur, o coraçãozinho de Martinha disparava no peito preocupado com seu papá que muito amava. Corria veloz pela íngreme estrada até o topo, descendo vertiginosamente por o outro lado só estacando junto da porta do velho moinho de água, a muito desativado. Papá, papá, chamou mal entrou pela velha porta de madeira. Estou aqui filhota gritou-lhe ele dos fundos. A menina passou a mão por seu longo cabelo e ainda ofegante constatou que seu pai chorava. Papá, perguntou contristada. Estás doente? Mário limpou as lágrimas e pediu-lhe que se aninhasse nos seus braços. Sim filha. Estou doente do coração, afirmou. Do coração papá? A menina não estava a perceber. Seu pai nunca se havia queixado de tal coisa. Não é bem uma doença querida, disse-lhe Mário. Não? A menina afastou-se um pouco e olhou os olhos avermelhados de seu progenitor. Não, não meu amor. É uma dor tão intensa, tão profunda, cortante que não existe ainda remédio para ela, aclarou. Nem mesmo isto? Martinha tirou uma garrafa de vinho do saco que trazia. Nem mesmo isso meu amorzinho. Mas quando bebias isto ficavas sempre alegre e eras muito divertido e ríamo-nos muito! Mário tentou que ela percebesse a razão de ele ser dependente do vinho. Nada que já não lhe tivesse dito, contudo, e como ela fazia-se sempre desentendida, repetiu novamente. Mais uma vez a menina contornou a explicação e mudou o assunto para onde mais lhe convinha. Bebe pai, bebe, pediu-lhe ela. Oh filha, não gostarias de estudar e ter uma casa mais confortável? Com luz elétrica, banheira para tomares um duche, um quarto com uma cama para sonhares com coisas boas, coisas assim? Papá! Papá, não me digas que conseguiste uma casa para nós, perguntou-lhe com a felicidade estampada no seu bonito rosto. Infelizmente não querida, disse-lhe Mário. Não faz mal papá, eu fico sempre onde tiveres e tratarei de ti sempre. Aquelas palavras fizeram com que Mário voltasse a verter algumas lágrimas. Sua decisão já estava mesmo tomada, restava-lhe divertir-se com sua linda filha, seu anjinho. Desde a separação de sua mulher que os havia abandonado sem deixar rasto, Mário desgostoso, verdadeiramente abalado pela situação, entrou em desnorte, arrastando consigo sua filha que a data tinha somente 6 anos. Desde tal acontecimento, e depois de cair nas ruas, a 2 anos que viviam na velha azenha, como dois fugitivos. Todos seus supostos amigos fecharam-lhe as portas quando mais precisava. Não tinha parentes próximos, só alguns tios emigrados mas que nunca se preocuparam com ele e seus pais ao quando de ainda viverem. Martinha como todas as crianças teria de frequentar a escola, mas e embora os habitantes os conhecessem, ninguém usou confrontá-lo com medo de represálias, a fama de homem violento espalhara-se ao quando duma luta que ele teve com alguns durante a vida de cidadão exemplar. Morre o homem, fica a fama! Além da maioria não se importar pelo seu semelhante, olhando para somente seu umbigo, eram como cegos, surdos e mudos. Só suas vidas importavam, o resto nunca era nada com eles. Mário sempre fora bondoso, afável, mais virava animal quando lhe pisavam os calos. Esse foi o maior entravo a denúncia. Porém, passados 2 anos, Mário era uma ínfima amostra do que um dia fora. Não podia com uma gata pelo rabo, quase nem força tinha para andar. Estava a beira do abismo. Sabendo dos limites do corpo humano, pois sua antiga profissão como nutricionista assim o exigia, tomou a decisão mais complicada de sua vida.

Entretanto e depois de matar a ressaca com vinho, esse dia foi passado com sua amada filha. Passearam ao longo do pequeno rio, apanharam flores silvestres e comeram morangos selvagens. Quando já o sol mergulhava por detrás do monte, quando só restava como vestígio uma ínfima facha alaranjada, eis que Martinha repara que as luzes dum carro desciam em direção a eles. Papá, é muito raro nós vermos carros por aqui, quem será, perguntou olhando seu pai que cerrara os lábios deixando fluir todo o seu sentimento. Papá? Papá? Martinha estava confusa. Porque seria que seu pai dera em chorar mal avistou o carro? Uma coisa veio-lhe a mente. O carro daquelas mulheres que a queriam raptar um dia e que seu pai a escondera. Mas porque meu papá chora se não me resguardou de trasiundos?Entretanto o automóvel parou mesmo a dois metros deles saindo do seu interior duas mulheres ainda novas. Nessa altura já Mário baixara a cabeça, não tinha forças para mais nada. Marta olhava para ele e para as mulheres. Algo lhe dizia que desta vez seria diferente e, ela teria de fugir! Recuou alguns passos e quando se preparava para zarpar, foi barrada por um homem mesmo por detrás de si. Para onde vais, fujona? As duas mulheres chegaram-se junto dela que tentava se desfazer dos braços do homem. Martinha, Martinha minha linda, disseram quase em simultâneo. Eram as mesmas! Papá, papá, gritou. Porém, Mário manteve-se tal como estava, mudo e cabisbaixo. Papá não! Papá não, eu adoro-te papá, não me deixes por favor. Enquanto Martinha bracejava e gritava por ele, Mário deixou-se cair e ficou de joelhos com a cabeça prostrada no chão de terra batida. Papá! Papá! Papá! Por favor, papá não me afastes de ti! Foi a suplicar pelo seu querido pai que entrou no carro. Mário estava desfeito. Sentia-se impotente, só com vontade de morrer. Levantou o rosto ao céu e gritou: Oh Deus, ´

É grande e cáustica minha dor! Meu Deus mata-me, é doloroso demais. Porque meu Deus, porquê! Enquanto Mário gritava a plenos pulmões, alguns pingos de chuva deram em cair para mais tarde se transformarem numa grande chuvada.

 

Pára aqui, ordenou Margarida de passagem pela sua terra natal e que saíra a vinte anos para tirar um curso, mas que veio a desembocar em estrela das passarelas. O motorista travou e olhando pelo retrovisor, comentou: Senhorita, é só um vagabundo e nada mais. Com esta chuva toda morre ali mesmo! Que horror como se pode deixar um pobre coitado deitado na berma duma estrada? Aquilo fazia-lhe confusão. Como ser-humano poderia ser tão primitivo! Sentiu um aperto no peito incomum. Vamos lá fora. Com este dilúvio? Pergunta que enfureceu a linda Margarida. Eu pago-te bem, talvez bem demais para aquilo que estás a me mostrar. Desculpa senhorita, era só…. Era nada! Vem comigo lá fora, gritou-lhe de raiva. Sim senhora, como a senhora quiser. Depois de colocarem o corpo dentro do automóvel de luxo, em alta velocidade dirigiram-se para o hospital mais próximo. Senhora, não me leve a mal, mas o dia já está a nascer e tem uma cessão de fotos para realizar, informou-lhe o motorista. Que se dane as fotos. Marca-se para outro dia, respondeu tirando do maço mais um cigarro. De repente ouve seu nome ser chamado nos altifalantes. Correu para lá, onde já a aguardava o médico. Minha senhora, o que tenho para lhe dizer é que seu amigo precisa ficar internado, detectamos uma grande inflamação no fígado, provavelmente por influência do álcool. Ele já está acordado, perguntou a modelo. Sim, pode o ir visitar, mas previno-lhe que ele ainda está muito confuso afirmou o clínico. Martinha, Martinha, perdão minha filhota. Precisava ser assim minha flor. Margarida mal se aproximou da cabeceira pregou um enorme susto. Mário! Mário meu Deus! O destino tinha os juntado quando parecia quase impossível isso acontecer. Mário e Margarida haviam sido namorados na adolescência. Mas depois dos seus caminhos terem tomado rumos diferentes, nunca mais pensou em o ver de novo. Passou ainda algumas vezes pela terriola, contudo nem sinal dele. Perguntou a algumas pessoas se o conheciam mas todas agiram de maneira estranha. Então era isso, ele tinha virado um indigente pensou a deslumbrante mulher. Margarida? Os olhos de Mário fitaram-na com espanto. Como… Como vieste parar aqui?

Há uma estrela que nos guia, uma luz que nos acompanha,

Faça noite ou dia,

No sopé ou na montanha.

 

Ainda te lembras disso? Margarida não conseguiu segurar as lágrimas. Ficou para sempre, murmurou. Horas mais tarde e já numa enfermaria, recordaram ambos a infância, mas principalmente a adolescência, etapa de suas vidas a mais importante. Margarida ficou a par do acontecimento, do que Mário tinha passado até novamente se terem encontrado. A modelo para ficar do lado de Mário, cancelou todos os seus compromissos e dedicou-se totalmente a sua recuperação. Mas e quando Mário já estava prestes a sair do hospital, chegou-lhe a notícia que sua filhota estava a beira da morte. Não! Não meu Deus! Margarida abraçou-se a ele e ambos resolveram ir ao encontro da menina. O quarto que jazia maribunda estava escuro, só uma nesga de luz entrava e que insidia sobre o rosto de Martinha. Os médicos disseram-lhe que a duas semanas que deixara de comer nem mesmo os remédios faziam efeito. Tentamos de tudo. Mas a menina parecia ter abdicado de viver. Procuramos o senhor mas também não estava em condições de nos ajudar. Sabe senhor, disse-lhe o médico: Existem remédios, fármacos que só quem tem fé pode os administra-los. São produtos que ganham outra relevância quando tudo parece estar perdido. Fale com ela, beije a menina, diga-lhe que a ama, abra seu coração. Aquele médico pareceu-lhe diferente dos outros. Seu olhar era triste, complacente, amoroso. Mário aproximou-se de sua filha profundamente adormecida e pegando em suas mãozinhas disse-lhe: Olá princesa, sabes porque estou aqui? Vou-te dizer mas só fica entre nós, tudo bem? Vim te buscar para vivermos para sempre juntos, que tal? É bom não é? Margarida juntou-se a ele e abraçando-o por detrás sussurrou-lhe: Tua filha é linda, parece um anjinho. Força Mário, ela pode não poder voltar, acrescentou de voz embargada. Ficou junto dela duas horas mas teve de se ausentar a pedido da equipa médica, seu coração vinha enfraquecendo a medida que as horas avançavam. Não posso perder minha filha, não posso! Se eu a perder mas nada me prende a esta terra. Margarida abraçou-o e disse-lhe olha para mim, por favor, olha para mim, repetiu. Não vou querer te perder novamente! Mário apertou-a junto a si e deu-lhe um beijo ode-leve nos lábios. Perdoa-me, por favor perdoa-me. Claro que sim querido, disse-lhe ela emocionada. Quando ainda descarregava todas as suas mágoas, frustrações, ouviram um empregado do hospital correndo ao seu encontro. Senhor, senhor, venha comigo. Que aconteceu? Que aconteceu. O coração de Mário disparou no peito. Não, não quero crer, dizia enquanto tentava acompanhar o ligeiro rapaz. Abriu a porta de supetão e não viu o corpo de sua filha sobre a cama.

Não, não! Martinha! Martinha não me abandones! Mário gritava desesperadamente. Que se passa aqui, perguntou o mesmo médico que lhe falara antes. Onde está seu corpinho, eu quero ver! Margarida encostara-se ao umbral e chorava compulsivamente. Venha comigo, pediu-lhe o médico. Antes de abrir a porta onde supostamente estava o corpo de sua filha amada, perguntou-lhe: Você acredita em Deus, não acredita? Mário abanou a cabeça como que confirmando. Então, ore por mim também, pediu-lhe. Mário por momentos olhou-o nos olhos e verificou que chorava. Foi passo-ante-passo que se dirigiu a cama dos fundos, a única que lá havia. O rosto de sua filhinha parecia tranquilo, suas mãos estavam colocadas ao lado de seu corpinho, seus lábios pareciam sorrir. Filhinha, minha amada filhinha, murmurou. Oh filha, se o papá pudesse dar sua vida pela tua, dava já, choramingou Mário. Fechou os olhos e orou: Senhor Deus sabe que tenho andado afastado de ti e por caminhos antagónicos as escrituras, a tua palavra. Mas meu Deus, já que a quiseste levar, senhor, leva-me a mim também! Papá? Papá? Senhor, até parece ouvir seu chamamento. Papá? Papá? Mário sentiu uma mão no seu ombro e abriu os olhos. Era Margarida com as lágrimas nos olhos. Olha para tua filha novamente meu querido, pediu-lhe. Quando Mário orientou seu olhar para a cama, Martinha estava sentada de braços abertos e a sorrir na sua direção. Papá, eu vou ficar aqui muito tempo? Estou cheia de fome!

 

Fim:

 

 

Roberto Marcos.