PERSEVERANÇA

Perseverança

 

O mar cada vez mais se alterava a medida que o tempo percorria. Manuel arriscara sair porque seu principal motivo estava em casa e a espera que ele chegasse com uma boa pesca, ou o suficiente para suprimir as necessidades mais urgentes. O novo membro fizera crescer a família mas também a responsabilidade. Levantara-se pela manhã cedo enquanto todos ainda dormiam a bom dormir. Maria, essa não. Preparou-lhe seu pequeno-almoço e marmita para o dia de faina. Uns ovos mexidos com tomate e dois bocados de pão de ontem eram o suficiente para enganar a fome. Agora a distância que o separa da doca da Horta ainda é considerável. Uma aberta no tempo, mesmo que a previsão dissesse o contrário, levou a arriscar pela saída. Não poderia deixar sua família sem sustento. Maria sua esposa querida dissera-lhe que o dinheiro só daria para mais um dia. Instigado pela urgência, não se fez mole, tratou de procurar saídas. Na cama não se resolve nada, nem cai do céu pão. O tempo do maná já passou.

Hoje vive-se a base do trabalho porque a escassez é uma realidade na ilha. Os que tem gado nos pastos, esses não estão tão preocupados com o dia de amanhã. Manuel não tinha essa dádiva. Paula sua filha mais velha receberia na próxima semana.Não podia deixar a casa, agora com mais uma boca, seria urgente não se fazer difícil na hora de procurar sustento. O seu Deus não o deixara carecido e por isso enquanto navega rumo ao porto, agradece-lhe  em sussurro. O tempo encoberto mal dando para ver um palmo a frente do nariz, fazia Manuel reduplicar a atenção. As vagas tocadas pelo vento norte assaltavam a pequena lancha querendo nela entrar.Com a destreza que só os anos lidando com o mar lhe dá,Manuel como gosta de dizer, escolhe os atalhos que as marés facilitam a quem a elas conhece.Com uma pequena bússola na mão direita, a esquerda no pau do leme, progride entre a espuma feita pelas grandes ondas junto a costa onde as marés não se fazem tão fortes. Hoje mesmo defrontando o poder da natureza, sua pescaria não foi nada mal. Sua alma goza de alegria.Enquanto a pequena ilha azul, transmissão de seu falecido pai sobe e desce as ondas com agilidade junto a costa da ribeirinha, local que Manuel resovera ir, o manto de cerração dissipa-se um pouco, fazendo Manuel ver com mais nitidez o farol. Com ele a vista sente-se mais tranquilo, podendo apertar mais com o velho motor que já deitava fumo negro de esforço. Por certo ela estará lá pensa ele, fazendo a lancha se desviar duma grande vaga. Maria sua companheira de sempre nunca faltou um dia os anos todos que vivem um para o outro. Sempre está a sua espera. Dá-lhe gosto constatar que mal desemboca o farol do porto, lá está ela com seu cabelo longo e com seus olhos verdes como a verdura da ilha esperando nervosa por ele. Ama-a com todo o seu ser. Não é homem de muitos floreados no que se diz respeito a palavras bonitas, mas sua alma apraza-se e orgulha-se muito da mulher que seu Deus lhe colocou no caminho.Mulher afável e bondosa, mãe dedicada e carinhosa, mulher séria e sensível, enche-o de paixão todas as vezes que Maria lhe vem a memória. Putanheiro alcunha vinda de seu pai, que nunca lhe disse porquê essa alcunha, mas para bom entendedor, meia palavra basta, Manuel é entre a comunidade piscatória uma espéci de patinho feio. Nada que o mortifique, pois não é de muitas lamechices. Não frequenta   tascas, não faz parelha com os que se juntam para maldizer de outros, bem vive bem longe dos hipócritas. 

.  Herdara o feitio despretensioso mas muito seguro e frontal.  Todos esses defeitos, para alguns, virtudes para outros, estavam-nos genes. Sua religião e seus hábitos contrários a maioria dos restantes, alimentam muitos rancores. Mesmo quase todos não serem nada nem saberem nada de religião, falam contra aquilo que não conhecem e inspiram sua estirpe porque somente vão atrás duma religião que os incentiva para festaspagãs, onde os santos criados para o efeito, vão de encontro aos desígnios da igreja instalada.  Manuel sente-se uma ave errante que voa numa tempestade de invejas e dissimulações, colocando-o sempre a prova sua lealdade naquilo que acredita. Maria já o esperava no cais com sua filha mais velha que fizera 18 anos a poucos dias. Os outros estavam na escola, e o novo membro da família ficara com a vizinha enquanto Maria nervosa olhava o farol situado no limite da doca, a espera que a ilha azul desembocasse em direção a lota onde esperava-o mais sua filha, preocupando-se por constatar que o tempo agravara. Um  grupo de pescadores juntara-se No exterior da lota quando constataram que o putanheiro imbicou com sua pequena embarcação para a lota. José marisco, Carlos marujo, e Luís lapa, conversavam e magicavam onde poderia o putanheiro ter ido para agora vir descarregar a lota. Devorados pela inveja por perceberem que Manuel mesmo com o tempo contrário, não deixa de procurar sustento. Merecia morrer a fome! Lá vai ele o dono da verdade. Os protestantes acreditam no diabo. Burros! Respondeu Manuel um dia a Carlos preto, um dos que ainda vai falando. Claro que acreditamos em sua existência. Se assim não o fosse, não o podíamos combater com a palavra de Deus.Carlos preto, fica sem resposta como quase todos que se dizem membros da igreja dominante.Nada que Manuel não o espere. Também ele quando jovem  ele era assíduo   nas festas pagãs. Não por acreditar em santos de pedra, mas simplesmente para se distrair com algumas miúdas. Todas freguesias da ilha, como de Portugal inteiro tem um santo de estima. Os impérios como na ilha chamam aos arraiais,  são um covil de bebedeiras e guerras entre os habitantes. Onde está aí a igreja? Não será a igreja a verdadeira tutelar da doutrina de Jesus? Tudo que se passa nessas festas, não é adverso ao que Jesus Cristo pregava?  Manuel inflama-se contra os que se dizem crentes, mas nunca poem os pés na igreja, sendo os primeiros a reprovar as outras religiões que fazem simplesmente o contrário. Na juventude, também ele era obrigado a ir aos domingos a igreja imposta por sua mãe, que a época era devota do que mais tarde, e já covertida a igreja baptista, condenava. Os santos inventados e das mais diversas heresias contra a palavra de Deus, sempre foi seu cavalo de batalha. Sofreu muito ela e sua família com seus  esclarecimentos e tentando abrir os olhos aos habitantes da ilha. O maior cego é aquele que nãoquer ver. Este ditado popular servia-lhe para lhes dizer o que achava deles. Uns insurgiam-se  contra ela e filhos, outros faziam que não intendiam. Deixou mais tarde procurar ovelhas para o ceio do senhor. Pagou ela e sua família a audácia de ter uma religião dissemelhante. Desde sujarem  os puxadores das portas de sua casa com excrementos humanos,partir os vidros a altas horas da noite, matarem as galinhas que criavam, etc.Jesus também pregou, e só aceitou quem o quis. Dizia Florinda mãe de Manuel , resignada com a vontade geral.Eram 3 os pescadores que não gostando de Manuel nem de sua geração, conversavam entre eles, local provável que o pedante do putanheiro terá ido. José Marisco, Boné a banda, barriga muito desenvolvida, criador de vacas e dono duma loja na cidade, olhava Manuel com um olhar muito concreto e o bastante elucidativo  para se notar sua raiva de estimação. Contestava a opinião de Lapa, que lhe estava a tentar dizer que com o vento que se fazia sentir era quase impossível Manuel ter ido para o lado que o vento mais sopra. Ele conhece bem as marés e os recantos da ilha. Agora deste para o defender? Perguntou marisco a lapa. Nada disso. Respondeu Luís, de alcunha lapa. Só estou adizer a verdade merda. Lapa, não era tão mordaz nas análises sobre o putanheiro. Ele no fundo admitia sua inveja de Manuel. Isso não poderia ser dito em frente a marujo. Ele comia-o vivo!O calado Marujo, Sempre detestou Manuel. Desde o dia que ele lhe partiu um dente em plena lota, que sua raiva foi ainda maisavivada .Lembra-se como fosse hoje o dia que o putanheiro armado em herói respondeu-lhe com um sopapo na boca a sua apreciação sadia da qualidade do pescado dele. Manuel não gostando do modo que marujo de maneira sínica se aludiua seu pescado, não teve contemplações e aplicou um valente soco na boca de marujo em pleno local de venda do pescado. Já não gostava dele, agora odeia-o com todas as suas forças. Suas divergências pessoais principiaram ainda eram jovens os dois. Maria era a pretendida por marujo e sua grande paixão. Mas apareceu aquele picaroto para me dar cabo dos desígnios. Maria era natural das Lages  do Pico. Veio para o Ffaial servir nas casas dos senhores com Dinheiro. Bonita e mulher prendada, foi a cobiça  dos homens da comunidade piscatória. Tudo foi acalmado, quando ela se inamorou por aquele pescador a cheirar a prefume barato.Desde esse dia, marujo criou uma aversão por Manuel, e jurou não descansar enquanto não os separasse. Acho que é ele mãe. Disse Paula descortinando uma pequena mancha que surgiu encostada ao farol.Maria respirou de alívio vendo a pequena embarcação de côr azul. O motor a gasóleo deitava fumo negro cada vez mais visível a medida que se ia aproximando do cais. Maria sorriu vendo que se dirigia para a lota. Hoje teve de pedir dinheiro emprestado a fim de comprar algo que comessem. Não tem um eescudo no bolso, e a prestação vence amanhã. Manuel não o sabe. Havia lhe dito que o dinheiro dava para mais um dia, mas mentiu. Sabe ela que podia estar a colocar tensão nele, e aí provocar da parte dele medidas drásticas para ganhar algum. Nunca gostou de pedir nada a ninguém. Orgulho de quem faz tudo para que nada falte a família, e tem o conseguido. Mas por vezes não é o suficiente. Não deseja que ele se sinta um homem fragilizado se lhe disser o que ganha por vezes não dá.  Deus seja lovado, pensou ela agarrando-se a Paula que olhava seu paicom orgulho. Ele lhe prometera quando tivesse uma boa pesca, que lhe compraria uns sapatos novos. Os que usa estão estragados e suas amigas do bairro zombam com ela. Tem vergonha de ir trabalhar com eles, mas não pode deixar de o ir. Sente-se muito triste por ver o esforço que seu pai faz para sustentar a casa, e muitas vezes não o consegue. O dinheiro que ganha na fábrica de conservas deixa-o todo em casa. Completou 18 anos e por sua iniciativa pediu a seus pais que a deixassem trabalhar. Gostava muito de ter seguido os estudos, mas não deixaria nunca de ajudar seu pai. A família e seu sustento está sempre em primeiro, pensa a bonita Paula. O pastor da igreja que frequentam diz-lhe que ela tem de ser perseverante em sua fé que Deus na hora que ele entender, os ajudará.Ela crê em Deus e fará tudo como ele deseja. Manuel sorri ao verificar que Maria e sua filha mais velha o esperam. Abranda a marcha da ilha azul, e faz a manobra de atracagem. Maria pega no cabo lançado por ele e entrega a Paula que prende a lancha ao moitão com um nó de pescador que seu pai lhe ensinara. Manuel salta para a escaleira   e beija Maria com fervor. Fazendo os outros pescadores sorrirem com desdenho da cena. Marujo engoliu em seco vendo sua amada beijar Manuel. Passados tantos anos, ele ainda amarga ao ver Maria junto com ele.  José e Luís ainda distraídos em tentar descortinar onde o putanheiro havia ido, e verificar a quantidade de seu pescado, não davam pelo semblante carregado de marujo e a leste do que José e lapa congeminavam. Mordia-se de ciúme por ver Maria encostar seus lábios naquele arrogante. Tantos anos Maria, suspirou baixinho marujo, virando o rosto para o lado. Manuel Quando saiu de casa deixara-a  dormir, agora depois dum intervalo de algumas horas, ela parece-lhe mais bonita do que dantes . Saudades . Paula ao pedido de Manuel, foi a lota buscar uma caixa para lá ser depositado o peixe. Bastou um olhar de Manuel a Maria, e um sorriso, para ela perceber que suas preocupações por agora estavam desanuviadas. Os pargos eram de bom tamanho. Nem muito grandes nem muito pequenos, tinham o tamanho que os vendilhões mais apreciam . Hoje era ele o único pescador a descarregar na lota. Arrescara uma saída,e deu-se bem com isso. Não é muito de seu agrado sair em dia de temporal, mas seu Deus certamente o compreendeu,  e a prova está no pescado que ele com sua generosidade lhe concedeu.Boa pescaria Manuel. Estava mal para lá, não estava putanheiro? Perguntaram-lhe José marisco,  mais  Luís lapa já dentro da lota.   Com o peixe vendido por um preço considerável , Manuel lá fez um esforço e respondeu. ainda estou tonto de tanta cambalhota. Respondeu-lhes, passando a mão no seu pequeno bigode.   Acomodando seu boné e Não lhes dando muita atenção, pois conhece-os bem e seus interiores, mesmo assim, e por estar feliz de de Deus lhe dar sustento, lá sorriu para eles.  Os dois pescadores riram da expressão do putanheiro. José marisco deu-lhe uma palmada nas costas, e exclamou. Este putanheiro é sempre o mesmo.  Marujo estava ao canto da lota observando a conversa dos restantes que de maneira desfarçada lisonjeavam  Manuel. Ele não era homem para engraxar ninguém Limitava-se a observar  o papel que os outros faziam, sabendo ele muito bem, que tanto José e o lapa, detestavam-no. Seus olhos desviávamm-se por vezes para a mulher e filha de Manuel. Maria era formosa e sua filha tinha o mesmo jeito e corpo de sua mãe. Devorava-as com os olhos.  Lembrando-se de Maria rapariga solteira. Paula é a cópia perfeita de Maria.  Dispara sua raiva, ao se lembrar de Maria moça. Não fora o putanheiro aparecer, e quem sabe já não seria minha.  Deu meia volta, e conformado encaminhou-se ao tasco a fim de afugar suas mágoas. Não passou desapercebido a Maria o jeito que marujo a olhava.  Tinha sido tudo mais fácil se marujo tivesse aceitado bem a nega que ela lhe deu ao quando do pedido de mamoro feito por ele. Até então, eram bons amigos, mas ela mal avistou Manuel pela primeira vez, não teve dúvidas, sabendo na hora que era com ele que desejava constituir família. Seu jeito altivo, seu bigode parecendo um Artista  de cinema, balancearam seu coração no momento. Moreno, alto e musculado,  cabelo curto e seus olhos pretos e penetrantes, foram um fator muito importante na escolha. Paula e sua mãe, ficaram as duas até Manuel lavar a lancha e preparar o velho motor para a possibilidade de haver uma aberta no tempo, e ele se fazer outra vez ao mar. Não podia existir folgas nos mêses de inverno. Todos os dias favoráveis   teriam de ser utilizados para se sair. São mais os dias em terra nos mêses de inverno, dos que se sai a pesca. Clima ruim. Diz muitas vezes Manuel, sobre o clima  dos açores. Era uma quarta feira, e o ano de 1980 mês de fevereiro. Um mês antes as ilhas terceira, graciosa, e são Jorge, tinham sido abaladas por um colossal terramoto, no dia 1de Janeiro. Foram destruído muitas habitações, e algumas vidas ceifadas.Todo o grupo central sentira o fenómeno da natureza.O Faial sentiu o abalo, mas sem consequências de maior. Os três depois da lancha lavada e bem amarrada ao cais por Manuel, subiram a pequena ladeira que vai dar ao bairro onde moram junto da junta de fregueisia  das angústias. Pelo caminho contava-lhes as aventuras passadas no dia de mar. Tanto sua mulher Maria como sua filha mais velha Paula, nunca se fartavam de ouvir todos estes anos as histórias que ele de maneira única e alegre lhes narrava. Elas também informavam-no do dia das crianças e das peripécias que sempre ocorrem no bairro. Porrada é quase todos os dias, intrigas, existe de tudo um pouco num bairro tipicamente de pescadores.  Hoje era dia de culto na igreja onde a muitos anos Manuel e sua família se faziam presentes.Sua vontade passava por chegar a casa, e beijar seu filh mais novo , atribuindo-lhe  o nome de Alexandre.Ele desejava que o menino se chamasse Manuel como o pai, mas Maria foi contra. Já havia muitos Maneis na família. Foi o bisavô, o avô, o pai, outro não! Bateu o pé e ganhou a determinada  Maria. Quando chegasse a casa,tomaria um banho revigorante e vestia seu único fato para mais sua família irem ao culto que começava as oito da noite.O dinheiro da pescaria só amanhã estava disponível, e por esse facto hoje não haveria nada para ofertar ao senhor. Ele sabe todas as coisas, pensou Manuel já de banho tomado, barba feita, e vestido com seu fato cinzento muito bem asseado por Maria. Eram sete da noite, e o temporal abatera-se com violência sobre a pequena ilha do Faial. Os relâmpagos cortavam o céu iluminando o mesmo duma extremidade a outra. Márcia com seus cinco anos, chorava incessantemente agarrada as saias de Maria, que lhe tentava acalmar dizendo que eram os anjos a lutar com os demónios.   Vendo que a menina não se acalmava, Manuel pega nela ao colo, sossegando a  chorona criança, sentindo-se ela mais segura.  Hoje Paula ficaria em casa. Não era bem isso que queria, mas Manuel pediu-lhe que ficasse com Alexandre. Hoje iria Susana de 11 anos que no culto anterior ficara ela a cuidar de Alexandre.Paula nunca se mostrou zangada com ordens de seus pais. Amava-os muito, e faria tudo que lhe mandam.Sua vizinha havia lhe emprestado um romance

E assim enquanto seu irmão dormia, ela ficava imbuída nolivro, sonhando com seu príncipe encantado. O rapaz que gosta, não lhe liga nenhuma. Filho do dono do botequim, vive cheio de meninas asua volta. Mas ele é tão bonito.  Pensa a jovem Paula suspirando quando se senta   e abre o livro, esperando a volta da família do culto ao senhor. Na igreja, Manuel e sua família davam graças a Deus ao Deus dos céus e da terra, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.A luz de candeias, o pastor David, clamava a Deus e pedia-lhe proteção contra a tormenta Que se abateu sobre a ilha. O mar fazia-se ouvir no interior da igreja, situada na avenida do infante a uns escassos vinte metros do quebra-mar, a única barreira que encontrava no trajeto até as casas.As vagas caíam com estrondo sobre o asfalto da avenida.Mas alheios ao som da tempestade todos lovavam a Deus a plenos pulmões. No fim do culto, Manuel dirigiu-se ao pastor, e comunicou-lhe que não dera oferta porque simplesmente não tinha um tustono bolso.Claro que David natural do Rio de Janeiro, destacado pela igreja para evangelizar  nos açores, gostou da sinceridade de Manuel, e disse-lhe. Deus nosso senhor, te ajudará para a próxima irmão.Enquanto a igreja depois de terminado o culto confraternizava, Manuel foi a porta da igreja, e olhava a tempestade tentando aperceber se seria uma borda de tempo, ou para ficar. A lua tinha ao seu redor um anel vermelho, não anunciandonada de bom nos próximos tempos. Mau irmão? Perguntou-lhe David, colocando sua mão direita sobre o ombro do pescador e constatando que Manuel olhava o céu com ar preocupado. . Nada de bom Pastor. Vamos ter muitos dias ruins por aí. Sua testa enrugara-se pensando como haveria de fazer para sustentar a família enquanto a tempestade permanecesse. Deus o ajudará irmão. Comentou David sabendo das dificuldades de Manuel.  Ficaram os dois alguns minutos olhando as nuvens que passavam velozmente sobre a baía da horta. As vagas quegravam-se no molho que protegia a avenida. As luzes da ilha do Pico,apareciam e desapareciam em virtude das grandes ondas que asolavam o canal entre as duas ilhas.   

Até amanhã Pastor. Disse Maria, quando David veio os trazer a casa no seu mini. A chuva caía com intensidade e os esgotos estavam a transbordar. Depois do pastor desaparecer no seu pequeno carro, já no interior de casa, Manuel acorda Paula, que havia adormecido ao lado de seu irmão,ainda de livro aberto. Manuel passa os olhos pelo livro, e  sorri ao se aperceber do conteúdo.Filha? Paula abre os olhos ouvindo a voz suave e tranquila de seu pai. Vai te deitar amor, amanhã tens de te levantar cedo. Disse-lhe Manuel dando-lhe um beijo no rosto. Manuel sente muito orgulho de sua filha mais velha. Seu coração amarga por precisar do dinheiro que ela traz todos os mêses. Não se esqueceu de sua promeça. Maria já lhe havia dito o tamanho de seu pé, agora sem Paula dar por nada, compraria seus sapatos tão desejados.  Mas além dum par, seriam dois. Esse foi o acordo que Maria e Manuel conversando os dois resolveram. Um esforço, mas caramba, se alguém que merece, certamente será ela. Enquanto Maria cuidava dos restantes, dando-lhes a ceia, constituída por sopas de leite, Manuel despia-se no quarto, colocando de novo seu fato no guarda-roupa, até ao próximo culto que se Deus quiser, será no domingo - Pensou ele, ao lá pôr seu estimado e único fato.Com Alexandre no berço aos pés de sua cama, e com Maria a seu lado, Manuel lia passagens em voz baixa da bíblia sagrada.O temporal ainda se fazia ouvir com veemência. Maria enlaça-se em Manuel, provocando nele desejos. Fizeram amor, e adormeceram de imediato os dois, pois o cansaço era muito. O silêncio era interrompido pelos trovões que mais pareciam grandes pedras rolando do firmamento caindo sobre a casa de Manuel e sua família adormecida.

 

O vento ainda se fazia sentir com grande força , mas a chuva cessara dando lugar a um céu cinzento côr de chumbo.Manuel acordara pela manhazinha quando ainda todos dormiam. As oito da manhã, hora que abre a dependência da secretaria das pescas,queria ser dos primeiros a ser atendido na lota açor, a fim de receber o fruto do seu dia anterior. Antes passara pela doca, reforçando os nós de sua embarcação encostada ao cais.Ficara preocupado com a quantidade de chuva que havia caído durante a noite, e por isso mesmo, levantou-se ainda não raiara o dia.Depois de esgotar a lancha, e bem amarrada, dirigiu-se descansado a receber seu dinheiro.No banco pagou sua prestação no balcão, e logo voltou a casa para preparar a pesca aos sargos. Os outros pescadores bebiam logo pela manhãem grupos como bandos de grifos maldizendo de tudo e todos. Manuel passa por eles de mansinho, mas não passa despercebido por marujo que já estava embebedado. Com a confiança que só o álcool dá, marujo cospe aos pés de Manuel ao passar por ele na porta do tasco. Manuel estacou prontamente, eolhou marujo de cima abaixo. Concertou seu boné, e de olhos semicerrados, facto que fez marujo sorrir de medo, diz-lhe. Vai para casa bêbado. Não passas dum porco sujo. Dá dois passos em direção a marujo, que resava pela sua pele, encostou-.lhe a mão ao peito, e com um leve empurrão, projeta   Marujo porta dentro indo cair por cima duma mesa onde os outros num ápice ficaram mudos e embaraçados.  Manuel continuou seu caminho rumo a casa. Como o mar não se deixa ser navegado, ele resolveu-se pela pesca de cana. O que não podia era deixar Maria sem dinheiro para governar a casa. O que restou depois de pagar a prestação, salvando o da oferta de Paula,  daria para mais dois dias, se durasse. A  maioria dos outros pescadores não passam tanta dificuldade, porque além da pesca, também tem gado.Poucos, muito poucos, vivem exclusivamente do mar. Já escreveu para o jornal local relatando esse facto. Não achava correto terem dois ofícios, tirando aos que vivem só do mar poder de compra. Quanto mais pescado, mais abaixa o preço do mesmo. Assim, eles além das vacas a renderem nos pastos, vão buscar o cunhão daqueles que somente sobre-vivem do que o mar dá. Por isso, sua reputação entre a restante comunidade não é das melhores. Nada que o preocupe, pois só diz o que pensa. Sua família merece que ele seja um homem seguro de si, e de suas ideias.Paula já estava na fábrica trabalhando, quando avista seu pai no pátio em busca de restos de atum para engodo. Maria fazia sua rotina habitual. Amamentou Alexandre que se mostrou adoentado, e de seguida deu o pequeno almoço a Márcia e Susana que logo de seguida foi para escola que ficava situada a poucos metros de sua casa.Ficando com os mais novos, tratando como sempre do almoço de todos, e limpezas domésticas.Maria sentia-se feliz, não por viver com dificuldades como é obvio, mas por ter um marido e uns filhos adoráveis. No bairro nãogosta de andar em mexericos, como é comum em qualquer bairro. As outras mulheres acham-na de nariz levantado e com manias de superioridade . Nada que ela não o saiba, mas não liga ao que elas segredam. Paula é cortejada por os rapazes da fábrica, e faz conta que não percebe suas insinuações quando se referem ao seu corpo. Segue os conselhos de sua mãe, que lhe adverte para os desejos da carne. Paula tem desejos sim, como qualquer rapariga, mas só se entregará ao seu eleito, e após o casamento.Por enquanto diverte-se a ver a cara de patetas deles. Sua mãe não gosta que ela use roupas apertadas,para não chamar a avidez dos homens. Maria teve de resolver um problema com Susana que veio almoçar,mas vinha triste. Os outros alunos, zumbavam dela por ser muito feia. Quem te disse que és feia filha? Os outros. Respondeu Susana de lágrima nos olhos. Ouve lá querida. Disse-lhe Maria baixando-se e beijando-a no rosto. Tu és linda amor. Mas eu tenho muitas sardas na cara mãe. Mas isso desaparece com o tempo Susana. Não é por isso que deixas de ser linda.Não ligues a eles amor. Maria constatou que suas palavras deram força e ânimo a sua filhota.Susana a mando de sua mãe lavou seu rosto, e sentou-se amesa para comer. Ser mãe acarreta e com amor,  consolar seus rebentos, e fazer ver que o mundo infelizmente não é como nós queremos. Prepará-los para os dessabores da vida sobrepõe educá-los para não fazerem aos outros, que não desejam que lhes façam. Maria era uma mãe muito afectuosa nesse campo. Não sendo mulher instruída, a vida encarregou-a de aprender a ser mãe atenta e compreensiva. A  data, o estudo não era prioritário    nos açores. Mal as meninas atingiam os 12 anos o trabalho era uma consequência. Maria mais seu esposo não queriam isso para seus filhos. Mesmo a mais velha teve de tirar a quarta classe. Manuel era dos poucos pescadores que sabia ler e escrever bem. Já Maria, só completou a terceira classe.O  cultivo  foi seu destino até ela por descontentamento e por atingir a maior idade, procurou outro rumo para sua vida. Paula comia na fábrica. Maria preparava-lhe um dia antes seu almoço, só lhe dando no mesmo dia, o pão que pela manhã ia buscar ao botequim. Manuel pescava defronto a fábrica onde Paulatrabalhava, mais propriamente no porto do alcaide, um pequeno porto situado nno pasteleiro o nome da localidade. Não estava a correr mal. Já capturara meia canastra de sargos e salemas. O mar quase devorava  o pequeno porto. Manuel com uma cana comprida, colocava-se em cima duma rocha a qual lançava engodo, chamando os vorazes peixes. Foi bem-sucedidomais uma vez na procura de pão para sua família querida.Só pela tarde e quando amaré baixou, e o peixe ausentou-se, que ele mais Paula, que aguardou o fim da pesca depois das cinco, hora que saiu da fábrica, se dirigiram ambos para casa onde Maria já os esperava com o jantar feito.A canastra cheia de sargos e salemas, davam para mais um ou dois dias sem sobressaltosquanto a alimentação da família. Os vizinhos abastados dos arredores do bairro, comprariam o peixe fresquinho.Maria, já precavida da pesca de Manuel, preparara o jantar para ele e os miúdos. Sua função após Manuel chegar, seria o de sempre quando acontece ele pescar na costa.Pegava na canastra sendo acompanhada por uma de suas filhas, e batia de porta em porta a fim de vender o pescado. Os restantes ficavam a jantar enquanto ela provavelmente com Paula, amais robusta, venderiam o peixe.

 

Marujo bebia no tasco Silva, e já estava bem bebido. Os outros pescadores que lá estavam, metiam-se com ele, sabendo da raiva de estimação que ele tem por Manuel. José com seu boné a banda e barriga posta em cima da mesa, atiçava a raiva de Marujo já de si grande. Ouve lá. Porque não pedes ao putanheiro que te diga onde foi apanhar os pargos? Com os olhos semicerrados i muito alcoolizado, marujo pede outra bebida, e manda José marisco para a merda com o Manuel. Encosta a barriga ao balcãoe magica a forma de dar o troco ao putanheiro. O que ele sabe a mim já me esqueceu. Responde a provocação do José. Sorte! Disse-lhes tropeçando na cadeira quando tentava responder a José, quase caindo. Os outros pescadores, riam-se dele.  Vendo que já estava pesado de mais, não querendo ser chacota dos restantes, marujo saiu do tasco com os bofos em labareda, aceitando a sugestão do dono do tasco. Os restantes mesmo não simpatizando nada com Manuel, tinham a certeza que ele era dos melhores pescadores da terra. Silva sabedor da inveja dos que ficaram após a saída de marujo, e por gostar de Manuel,  por o achar um homem íntegro e trabalhador, não deixou dos calar com a frase: Uns fazem pela fente, os outros mordem por detrás. Fazendo a parte que não compreenderam, mudaram automaticamente de assunto,  pairando um silêncio forçado e comprometedor. A noite ia caindo sobre a cidade da horta, e o temporal não acalmava sua fúria.A  discussão na casa de marujo era forte. Sua esposa constatou que ele chegara mais uma vez bêbado. Além do marido, também o filho já havia chegado carregado de vinho. Sou uma desgraçada! Gritou Lurdes, vendo o estado de seu marido. Só tenho bêbados em minha casa. Porcos sujos! Lurdes chorava e berrava de frustraçãopor ser parte daquela família. Vou dar cabo dele. Esclamou marujo para Lurdes que não sabia de que ele falava. Que falas Bêbado porco. Respondeu-lhe sua esposa. Aquele bandido do putanheiro. Tomara fosses +metade dele! Gritou-lhe Lurdes. Não falas mais dele assim. Disse-lhe marujo agarrando-se a Lurdes. Perdendo o equilíbrio, foram os dois parar ao chão da velha sala amarelada pelo fumo do tabaco. Entretanto já acordado, André não possibilita mais nenhuma agressão a sua mãe da parte de seu pai.Como sempre o fazia, Lurdes depois de salva mais uma vez, e desta vez por seu filho que das outras ocasiões é o atacante, asila-se  no quarto, e grita para o bairro todo ouvir. Os vizinhos acorrem a casa dos marujos, como são conhecidos.Batem a porta, e André enxota-os da soleira da porta com meia dúzia de obscenidades.Mesmo ouvindo o choro de Lurdes no quarto das traseiras, vão embora com medo do brutamontes do marujo mais novo. Já não era a primeira vez que André batia nos vizinhos que queriam socorrerLurdes. Seu pai levou umas palmadas no focinho só para não ter a mania que mandava em casa. O tempo que Carlos marujo era dono e senhor da casa passou a muito. Agora mandava ele, e seu pai só tinha de acatarseus desejos.Com a cara a arder das bolachas de André, Carlos marujo chorava como uma criança sentado num banco na cozinha.Porra pai, precisava fazer tanto barulho? Seu pai não lhe respondeu. Reflectia em sua mocidade,e se tivesse menos vinte, seu filho estava todo negro de porrada.Ouviste falar contigo? Perguntou-lhe André dando-lhe um cascudo no pescoço, dando a volta a mesa indo se sentar em frente a seu pai.  Já não me tinhas dito que não bebias mais? Foi aquele filho da puta do Manuel putanheiro. Que foi que ele te fez desta vez?Gosou-me em plena lota filho. André sentou-se a seu lado, e em frente a seu pai, disse-lhe. Qualquer dia parto-o focinho aquele merda! Com um valente soco em cima da mesa, deu largas a sua raiva. Marujo reparou que talvez se incentivasse mais a fúria de André, poderia ser ele a dar o troco a Manuel. Sabe também André, que Manuel mesmo com 50 anos, não seria fácil lhe chegar ao bigode. Sua família eram também conhecidos por jogarem bem ao soco. Só o caparro de Manuel, e seus braços duros e musculados metiam-lhe respeito. Havia outra coisa que refriava André, a bonita Paula. Achava-a tão linda, não queria a ferir com provocações a seu pai. Por certo ela não o desculparia

Deixe lá homem. Disse André a seu pai. Eu trato de ter uma conversa com ele. Marujo já havia ido ao frigoríficobuscar uma garrafa de vinho.Encheu um copo para si, e deu outro a André. Levantou o copo termendo com a mão, e gritou;  – gostava tanto que omandasses para debaixo da terra! . André limitou-se somente a beber pensativo.Lurdes já recuperada da tareia, entrou na cozinha dizendo. Tal pai tal filho! Outra vezmulher? Respondeu-lhe Marujo fazendo uma tentativa para se levantarmas não o conseguindo. Bem para a caminha. Esclamou André. Deu de novo a volta a mesa, e pegando por debaixo dos braços de seu pai, levou-o para o quarto, e lançou-o literalmente sobre a cama. Roncando, marujo ajeitou-se melhor , e passados alguns minutos ressonava.André ainda teve de ouvir sua mãe  por algum tempo.  Sua mãe não se cançava de o advertir para os malefícios do álcoool. Todos os dias fala a mesma coisa durante anos. Prestar atenção o que diz, ninguém.Mas enquanto ouver forças, Lurdes não se afadiga de alertar para os danos da procaria da bebida. Seu pai e seu irmão mais velho, foram-se por causa da maldita! Não se cansa de gritar isto aos ouvidos de marujo e seu filho. Poderiam ter uma vida mais folgada ainda. Não fora a maldita.Seu filho trata das vacas, enquanto seu marido anda a coçar

Os fundilhos nas tabernas.  A loja é gerida por uma empregada de longa data e vizinha da família.  Marujo não é muito de se atirar ao mar , mas Quando vai traz mais bebida no buxo do que gasóleo no motor. Lurdes sabe de sua aversão a Manuel, esse sim um homem com um h grande. devia ter mais sorte. Cuitado não faz mal a ninguém, e todos tem inveja do homem. Deve ser porque ele não se junta aos bêbados, e traja bem quando não está na pesca. Os restantes trapilhos cheiram mal, e se não bastasse, passam os dias nas tabernas da ilha. Lurdes é muito amiga de Maria. Por vezes sempre sem marujo saber, empresta-lhe dinheiro.Manuel também não o sabe. O orgulho dos homens. Dizem uma a outra quando se encontram. Vivem não muito longe uma da outra, e por esse facto encontram-se muitas vezes na mercearia, colocando a conversa em dia. Lurdes gostava muito que seu André desposasse com Paula. Meu Deus. Diz Maria quando Lurdes toca nesse assunto. Manuel subia as paredes de costas! André tem de mudificar muito seus modos para minha filha olhar para ele. Lurdes sabe que Maria tem razão, e até já abordou esse pormenor com André. Ele diz que se ela quiser até sobe o pico de joelhos!Mas esquece-se rapidamente. Paula até acha graça a André, mas vê nele somente um rapaz pateta e que não sabe bem o que quer. Já foi pedida em namoro por ele. Isso ajudouque ele tomasse a maior bebedeira de sua vida, quando ouviu da boca de Paula um redondo não. Paula pensa que ele se deixasse de beber e ser tão convencido, talvez lhe desse uma chance. Seu porte atlético não deixa a bonita moça indiferente. Seus cabelos loiros longos, e seu peito grande cheio de músculos fazem por vezes a bonita rapariga ter algumas fantasias.

Tudo passa rapidamente quando se lembra de seu vício, e o que seu pai pensa a respeito dele. Não, não iria dar certo.Sua paixão chama-se Filipe. Mas esse é ainda mais convencido. Menino do papá e com algum dinheiro, tem as miúdas do bairro a seus pés. Quanto a André, bem esse é um caso perdido. Tenta se esquecer dos desejos do corpo, mas sua idade e suas Armonas não lhe dão descanso.O pastor diz-lhe que era melhor ela se esposar com um membro da igreja. Ela ouve o que diz, mas não vê ninguém que seja do seu agrado.Não terá de ser assim. Disse-lhe uma vez seu pai, quando ela abordou esse assunto. Deus certamente gostará mais se tu trouxeres uma alma para sua igreja. Tudo ele sabe, e se for como ele deseja assim se sucederá.Coloca teu espírito nas mãos de Deus querida, e mantém-tefirme em sua palavra.Isso é que muitas vezes seu pai lhe diz. Paula considera muito as palavras de seu pai que ela tanto admira. Não irá se desviar de seu Deus e sua palavra por nada. Sente-se em paze isso deve-se a seu espírito estar em conciliação com o de Jesus. A grande maioria das moças da ilha casam-se novas, vivendo exclusivamente para seu marido e procriação. Paula tem sorte. Tanto seu pai, como  sua mãe não pensam assim sobre a vivência  entre um casal.O respeito entre ambos, e dialgo constante são os conselhos que lhe dão. Novas cheias de filhos, mal tratadas, praticamente umas escravas dos cônjuges. Uma parte grande das moças tem isso como garantido, por isso caem no mundo da escravidão ,subjugadas  aos desvaneios momentâneos de seus esposos  que entendem que as mulheres são meros objetos sexuais.  Não existe na sua maioria qualquer espécie de carinho, é chegar a casa bêbado, acordar a mulher abrir-lhe as pernas e se satesfazer sem se importar se ela teve ou não prazer. Aliviar seu marido, cozinhar bem, tratar  da rebanhada de filhos, e estar caladinha foi o que a maioria aprendeu . Hora, os machos quase todos analfabetos, era o contrário. Criados e habituados desde novinhos a assistir as demandas do velho pai, com alguma naturalidade aprendiam pela mesma cartilha. Até as mais velhas ,  gostavam de comentar a plenos pulmões que o homem é que manda a mulher obedece. – esta juventude está perdida ! Aludiam-se aos mais novos nomeadamente as moças casadoiras. No entanto, existia poucos mas havia alguns que destoavam da maioria . Era o caso da família de Manuel.  Havia respeito entre o casal, um ouvia a opinião do outro, decidia-se em conjunto , bem, era incomum na ilha, só os mais cultos procediam assim. – a ignorância  é meio caminho andado para se ser estúpido – comentava o  padre Júlio e amigo de Manuel. Júlio filho da terra , nascido na freguesia do salão, desde novinho sentiu o chamado e aos vinte cinco foi declarado padre . Alguns anos fora do arquipélago,regressou a terra mãe e ficou . Dentro em breve seria substituido mas até lá não se cançava de alertar seus paroquianos   para o pecado . Hora, o certo era que a igreja aos domigos estava a aborrotar  e todos que lá iam pareciam castos e cheios de boa vontade. – tumulos caiados de branco! Júlio conhecia-os como ninguém . O meio era pequeno e tudo se sabia. Os relatos ecoavam pela ilha num instatinho  até chegar aos seus ouvidos.

Isso emso que ouviste Maria.Chegou-me bêbado como um cacho a casa, e disse-me que teu marido era o culpado. Maria Ouviu o que Lurdes lhe contou, não deixando de dar uma gragalhada bem audível na mercearia, despertando a curiosidade dos que lá se abasteciam.  Tu acreditas? Perguntou Maria a Lurdes, com seus olhos verdes fitando-a.Claro que não Maria. Aquilo já são manias do meu marido. As duas mulheresdepois de pagarem suas contas e saírem para o vento que açulava a  pequena ilha do Faial, separaram-se e ambas com suas compras encaminhara-secada uma para sua respetivacasa a fim de tratar do almoço.Paula finalmente recebeu o presente que sua mãe fora-lhe comprar a cidade. Dois pares de sapatos. Uns para o trabalho, outros para sair. Manuel fez questão de ser ele a lhe entregar a oferta e ver seus olhos brilhando de alegria.Obrigado pai. Disse-lhe sua filha, dando-lhe um beijo carinhoso. Manuel ficou com uma mistura de alegria e tristeza. Alegria por ver sua filha feliz, tristeza por não lhe poder dar o que na realidade ela o merece.Sua esperança levava-o a procurar todos os dias contribuirpara o sustento da família, e que ela se mantenha unida.Essa quinta feira passou mais uma vez em harmonia na família de Manuel e Maria. O tempo melhorara e Manuel preparara tudo para uma saída madrugadora em busca de pão para os seus. Antes de todos irem para debaixo dos cobertores, passou-se tudo como todos os dias. Rotinas que aprofundam  os laços e que alimenta o amor entre todos.Nem Maria nem Manuel procuravam procedimentos diferentes nos seus dias. São as rotinas e os hábitos ganhos que os entrelaçam cada vez mais. A uma só voz, e todos em conjuntovencerão as adversidades.Tanto o chefe de família Manuel e sua amada Maria assim pensam. Não eram raras as vezes que as outras mulheres do bairro tentavam persuadir Maria do contrário. A resposta que lhes dava era muito simples e direta. Eu tenho tudo que quero. O amor de meu marido, e o  carinho de meus filhos. Mais nada me agrada. Seu jeito simples de se vestir, seu cheiro de sabão azul que magnetizava os homens que por ela passavam, era o bastante para ser a mulher mais desejada. Não seria por acaso que quase todas a invejavampor ser somente quem é.Mais nova do que Manuel cinco anos, seu corpo era airoso mesmo sem Maria o tratar convenientemente, nem se ralando comele em demasia.

 

A pequena ilha azul rasgava as ondas em direção ao local que Manuel escolhera na esperança de uma boa pescaria.Chuviscava e ovento encaracolava as ondas vindas tocadas por ele do quadrante sudoeste. Não estava bom para se aguentar muito tempo no mar. Manuel mesmo assim arriscou um pouco. Navegava em direção a freguesia do calhau situada na ilha do pico. Lá estava amparado  pela grande montanha, pois o vento saía da terra para o mar. Por esse facto, quanto mais perto do Pico mais meigo ficava o mar.A previsão do tempo era contrária a vontade de Manuel, mas mesmo assim lançou-se a procura de sustento.Bastava-lhe dois o três pargos para o dia estar ganho. Na rota até ao poiso de pesca, era acompanhado por um grupo de golfinhos que brincavam nas ondas que a lancha de Manuel fazia com sua marcha.Saltavam a proa e passavam em grande ligeireza por debaixo da ilha azul. Quarenta anos de mar, não tiravam a Manuel o fascínio por aqueles seres tão brincalhões.O cinzento do Pico era contrastado pelo verde azulado da ilha do Faial que cada vez mais ficava para trás. Meia dúzia de casas eram visíveis quando Manuel abrandou o motor, e preparou a poita para lançar ao mar.Olhando para as marcas em terra que lhe davam a certeza que estava no local pretendido, atirou a enorme pedra que amarrada por corda de náilhão  se afundou rapidamente. Já no sítio eleito e com a ilha azul presa pela proa , Manuel de súbito prepara o isco. Algumas  popas de cavalas que apanhara com esse intuito.   Arriou  o aparelho de pesca, esperando que Deus lhe dê algum peixe. Pouco a pouco seu nariz levantava-se olhando para o céu a espera que o barómetro natural que é a ilha do Pico lhemostre alguma alteração momentânea que ele tenha de se por a salvo. Está seguro, mesmo que o volátil clima não lhe autorize ir para o Faial, está a duas milhas do porto mais próximo.As nuvens cada vez mais vão cobrindo o céu no canal, Manuel apanha um grande pargo e fica desinquieto pressentindo uma boa pesca. Não chegara a muito e um pargo velho já mordera o isco. O tempo piora de minuto a minuto, Manuel imbuído na pesca e a necessidade urgente de ganhar algum, não dera pela tempestade que se abatera sobre o grupo central. Nada que ele não soubesse até suspeitasse que sobreviria mais cedo, mas o pão para sua prol levara-oao esquecimemto.Duas horas foram o suficiente para Manuel capturar quase uma caixa de pargos de todos os tamanhos.o mar estava furioso e Manuel em recurso teve de cortar o cabo da amarração pois o tempo exigia celeridade. O  velho motor não queria pegar, e Manuel via sua vida complicada pelo elemento que nunca o fez. Achuva abateu-se sobre o canal, e o vento tornara-se tempestuoso e arremessava a pequena embarcação contra as vagas embravecidas. Manuel aparentando calma, e com persistência que lhe é apanágio , voltou a colocar o motor em funcionamento.com o motor no máximo deslocou-se para o porto do calhau, indo se abrigar no tasco sobranceiro do porto e único do local.O  firmamento escurecera parecendo noite.Manuel conversava com os homens que do tasco avistaram-no  nas manobras para se livrar da tempestade. Maria ficou a par da situação quando Manuel lhe ligou informando-a do ocorrido, descansando-a.Conhecido bem no Pico , a seria problemático arranjar guarida para passar a noite se assim fosse imperativo.O peixe foi vendido com a ajuda dos homens que conheciam bem os habitantes da zona, e com a qualidade que apresentava, foi-se num piscar de olhos. Na época os habitantes do Pico além da caça a baleia, produziam vinho fazendo dele seu meio de subsistência.São Rock e as Lages do Pico eram os portos que mais caçavam o cachalote. Manuel quando de sua joventude, arriou pela freguesia do Salão vários anos. Renunciando a esse perigo, porque  os proveitos não recompensavam  os riscos.Sua espera foi recompensada. O céu abriu e o azul era já visível. O mar ainda se mostrava impetuoso, mas mesmo assim, e uma vontade intrínseca de estar com os seus, levou-o a se dispor a atravessar o canal até a ilha azul.O vento abrandara, e Manuel navegava com o fruto de seu dia atribulado na algibeira. Tirando a apoquentação, foi um dia muito lucroso.   Além de não ter de pagar a taxa na lota, os habitantes do Pico que lhe compraram o pescado ainda lhe deram uma saca de batatas. Chegado ao meio do trajecto, foi de novo vistoriado pelo grupo de golfinhos mais felizes do que dantes. Acompanharam-no quase até ao farol do porto da Horta. Ainda por ele passou a lancha espalamaca. Ela e a calheta eram as únicas transportadoras entre as ilhas vizinhas. Mestre Fejó lhe acenou ao passar por si. Os passageiros olhavam o mar incapelado pelas minúsculas janelas da transportadora local. Manuel estava feliz quando entrando no porto avistou ao longe sobre o cais Maria. Ela não estava só. Um grupo de pescadores e suas respetivas esposas também lá estavam.Marujo? Manuel estava surpreendido pelo número, mas particularmente pela qualidade dos presentes. Atracou sua pequena lancha, e mal pisou o cais, recebeu a notícia mais triste de sua vida. Seu filho Alexandre havia falecido com problemas repentinos do coração.Maria mãe aos 44, perdera seu filho tão aguardado porambos.A convulsão entre Maria e Manuel era desmedida e abrangente. Todos os pescadores juntaram-se na hora da angústia  e nessas horas foram esquecidas todas as divergências. As raivas, as manchas de animosidade, deram lugar a uma benignidade sem precedentes. Alguns dias atrás, Maria vinha notando o menino diferente . Como na idade de Alexandre os piques de febre são normais, seu  traquejo não lhe deu indicações que seria tão ruim como se veio a constatar.Nessa noite a casa de Manuelfoi um corrupio de visitantes, todos solidários com a dor da família. Marujo quase que foi arrastado por Lurdes e Andréaté a casa de Maria. Manuel estava ao canto da sala abatidoe pouco falador. Sempre desejara um rapaz e Deus não estava da acordo que sua alegria fosse perlongada por muitos e bons anos. Seja feito a tua vontade senhor. Sofredor mas resignado, espera que sua dor se aquiete, retomando o normal caminho da vida. Sua mão foi apertada inúmeras vezes, mas a mais imprevista estendeu-a marujo.Meus sentimentos putanheiro, disse-lhe marujo mostrando sinceridade. Obrigado marujo, agradeceu Manuel com as lágrimas nos olhos.Já dormiam as crianças mais novas, ficando Paula para ajudar sua mãe na confeção do café e bolos servidos aos que velaram o menino durante toda a noite.

Veio o outro dia, e o funeral de Alexandre atraío toda a comunidade piscatória. Os gritos de Maria ecoavam pelo sepulcrário.Manuel limitou-se a deixar cair suas lágrimas sobre a terra fria que seu filho seria sepultado. O pastor David suplicou a Deus que recebesse Alexandre no seu ceio.Todos trajados de cores escuras entristeciam-se  com a mágoa da família mais odiada entre eles. Não seria hora para rancores, morte é morte! As raivas seriam para mais tarde. As nuvens negras cobriam o céu da cidade da Horta, e os primeiros pingos de chuva não se fizeram esperar dando lugar logo após a uma bátega de água,  transformando o céu negro como carvão. Assustando muitos que permaneceram debaixo dos toldos envolventes do campo santo como dizem na ilha.Passaram-se algumas semanas, e a vida da família ia entrando na normalidade pouco a pouco. O tempo mau, deu tréguas finalmente, proporcionando ao pertinaz Manuel pescarias muito consideráveis. Suas capturas estavam a ser um cochicho entre a comunidade.Só o tempo iria mais uma vez fechar a ferida aberta pelamorte de seu filho.O seu mar além de ser seu amigo generoso, , acalmava-o quando navegando nele refletia em sua vidapassada e atual. Uma aperto permanente no peito, e uma tristeza indivisível, eram uma constante quando por vezes vinha-lhe a memória Alexandre.A vida tinha de continuar e Manuel o sabia. Maria já mais resignada, era a escora da família e avançava qual barcaça cortando as ondas. A dívida estava quase toda paga. Manuel estava a fazer pescas surpreendentes e o dinheiro, mesmo nos mêses de inverno já não lhes faltava. Por esse facto Paula ficava com metade de seu ordenado, e andava feliz da vida. Comprara roupas novas, produtos de beleza, e um gira-discos, onde podia ouvir seu cantor favorito,   Julio Iglésias.Sua desafectada beleza, finalmente chamaram a atenção ao bonitão do bairro. Seu pretendido Filipe!O moço vaidoso, mimado e arrogante, nomes que Paula mais tarde, e depois de duas conversas, veio a verificar seu caráter pouco recomendado. Bastou um passeio juntos na praia de porto pim ao fim da tarde, para o atrevido querer mais do que um beijinho. Mesmo sendo afastado por Paula assustada com os modos pouco ortodoxos dele, mais os adiantamentos e as mãos em sítios pouco recomendados para quem se conhece a muito pouco tempo, levou  a bonita moça,  terminar tudo o que nunca começara.Uma decepção Filipe. Não seria um marido assim que escolheria. Não respeita em solteiro, em casado seria o que ela constata nas outras moças. Eles nas tarbbernas, elas em casa apenas cuidando dos filhos até eles chegarem alcoolizados , pouco tempo depois mais um filho feito.Não, com ela não. Desejava um homem a semelhança de seu pai. Homem escorreito, carinhoso, bom chefe de família, em suma, tudo que deve ser um bom marido no seu entender.Com a disiluzão chamada Filipe, Paula decidiu aguardar que Deus lhe coloque em sua vida um homem que valha a pena se entregar.A vida de Manuel e Maria, corria bem, e ele ganhara muito dinheiro nos últimos mêses. Liquidaram sua dívida, e Manuel comprou um barco maior que deu o nome de Alexandre homenagem a seu falecido filho, conservando as recordações. 

 

Fim.

 

Pragassa.